Reinaldo de Mattos Corrêa*
Às cinco da manhã, antes do primeiro ônibus lotado atravessar avenidas ainda escuras, milhares de trabalhadores deixam bairros periféricos em direção ao centro urbano. Poucos aparecem nas manchetes, raros participam das decisões administrativas da cidade, quase inexistentes nos debates televisivos locais. Ainda assim, sustentam mercados, hospitais, escolas, obras e serviços essenciais. O aspecto mais inquietante dessa realidade talvez não seja a pobreza material, mas a produção contínua de silêncio político em torno dessas regiões.
Em muitas cidades brasileiras, inclusive Dourados, bairros periféricos convivem com uma presença paradoxal do poder público. De um lado, fiscalização intensa, policiamento frequente, controle burocrático e vigilância constante. De outro, ausência de investimentos culturais, abandono urbano, precariedade no transporte coletivo e participação reduzida nas decisões institucionais. O resultado não produz apenas desigualdade econômica; constrói uma população acostumada a falar pouco e ser escutada ainda menos.
Esse silêncio não surge espontaneamente. Ele é fabricado por mecanismos sociais discretos que atravessam escolas, meios de comunicação, repartições públicas e relações de trabalho. Quando moradores da periferia aparecem apenas associados à violência, ao desemprego ou ao assistencialismo, cria-se uma identidade coletiva limitada pela suspeita permanente. Aos poucos, muitos deixam de ocupar espaços políticos por acreditarem que opiniões oriundas dessas regiões possuem menor valor social.
Nas periferias, o medo também desempenha papel decisivo. Há receio de represálias institucionais, constrangimento diante da linguagem burocrática e sensação contínua de invisibilidade. Em entrevistas realizadas por pesquisadores de universidades públicas brasileiras, moradores frequentemente relatam dificuldade para acessar representantes políticos ou canais formais de participação. Não se trata apenas de distância geográfica entre centro e periferia; existe uma separação simbólica construída historicamente.
O urbanismo reforça essa dinâmica de maneira silenciosa. Bairros centrais concentram iluminação adequada, áreas culturais, espaços de convivência e serviços públicos mais eficientes. Já regiões periféricas convivem com ruas deterioradas, ausência de áreas verdes e deslocamentos longos até hospitais ou universidades. A organização física da cidade acaba moldando comportamentos coletivos. Quando parte da população vive distante dos espaços onde decisões acontecem, a exclusão deixa de parecer violência e passa a parecer rotina administrativa.
A tecnologia ampliou esse processo de maneira sofisticada. Algoritmos priorizam determinados assuntos, veículos de imprensa destacam regiões economicamente estratégicas e plataformas digitais transformam sofrimento periférico em conteúdo passageiro. Vídeos de operações policiais viralizam rapidamente, enquanto debates sobre saneamento básico, transporte precário ou evasão escolar recebem atenção reduzida. O silêncio contemporâneo já não depende apenas da censura tradicional; depende da seleção invisível daquilo que merece visibilidade pública.
Dentro desse cenário, a escola ocupa posição ambígua. Ao mesmo tempo em que representa possibilidade concreta de transformação social, também reproduz hierarquias históricas. Muitos estudantes periféricos aprendem desde cedo a controlar linguagem, aparência e comportamento para evitar humilhações sociais. Em vez de estimular pensamento crítico amplo, parte das instituições acaba treinando adaptação silenciosa às estruturas existentes. O problema deixa de ser apenas econômico e passa a atingir a própria imaginação política da juventude.
As igrejas, associações comunitárias e projetos culturais surgem frequentemente como raros espaços capazes de romper essa lógica. Em bairros afastados, rodas de conversa, saraus, coletivos juvenis e movimentos locais funcionam como formas de reconstrução da fala pública. Quando moradores narram experiências coletivas, o silêncio imposto pela exclusão começa a perder força. A periferia deixa então de representar apenas território carente e passa a produzir interpretação própria sobre a cidade.
A imprensa regional possui responsabilidade significativa nesse contexto. Manchetes que reduzem bairros periféricos a estatísticas criminais contribuem para aprofundar distâncias sociais já existentes. Por outro lado, reportagens que investigam ausência de infraestrutura, abandono histórico e desigualdade institucional conseguem revelar dimensões invisíveis da vida urbana. O jornalismo de qualidade não observa periferias apenas durante tragédias; acompanha também formas cotidianas de resistência, trabalho e organização coletiva.
Existe ainda uma dimensão psicológica pouco discutida. O silêncio prolongado produz sensação de impotência social. Quando demandas permanecem ignoradas por décadas, instala-se uma espécie de fadiga política coletiva. Muitos deixam de acreditar na utilidade da participação pública, fortalecendo um ciclo conveniente para estruturas de poder já consolidadas. Quanto menor a capacidade de mobilização popular, maior a facilidade administrativa para manter desigualdades intactas.
O aspecto mais sofisticado dessa tecnologia política reside exatamente na aparência de normalidade. Não há decretos proibindo moradores periféricos de falar; não existem barreiras visíveis impedindo participação pública. O controle acontece de maneira difusa, através da distribuição desigual da atenção, da escuta e da dignidade urbana. O silêncio contemporâneo raramente opera pela força explícita. Ele atua pela repetição diária da invisibilidade.
Observar bairros periféricos apenas pela ótica da carência econômica significa ignorar um fenômeno muito mais profundo. Existe ali uma disputa silenciosa sobre quem possui direito de interpretar a cidade, narrar problemas coletivos e influenciar decisões políticas. O silêncio social das periferias não representa ausência de pensamento ou de inteligência coletiva. Representa, acima de tudo, uma tecnologia moderna de administração das desigualdades, capaz de transformar exclusão histórica em paisagem aparentemente natural das cidades brasileiras.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.