Reinaldo de Mattos Corrêa*
Ao amanhecer em Dourados, caminhões atravessam avenidas carregando soja, milho, agrotóxicos e fertilizantes enquanto outdoors anunciam produtividade, crescimento e prosperidade. Em rádios locais, discursos repetem que o agronegócio sustenta empregos, financia cidades e movimenta o futuro nacional. A força econômica do setor é incontestável. Porém, uma pergunta raramente atravessa debates públicos: em que momento o agronegócio deixou de representar apenas uma atividade econômica para se transformar numa forma dominante de interpretar a própria realidade?
Durante décadas, o agro consolidou influência financeira, política e territorial no Mato Grosso do Sul. Entretanto, algo mais profundo ocorreu paralelamente ao crescimento das lavouras mecanizadas. O setor passou a organizar linguagens, símbolos, identidades e percepções coletivas. A ideia de progresso começou gradualmente a adquirir apenas uma imagem possível: grandes plantações, exportações recordes e expansão produtiva. Não se trata mais somente de riqueza material. Trata-se da construção de um imaginário social capaz de definir aquilo que parece moderno, legítimo e desejável.
Nas ruas centrais de cidades interioranas, essa transformação aparece em detalhes aparentemente banais. Camisetas com marcas agrícolas tornaram-se símbolos de prestígio. Feiras agropecuárias converteram-se em eventos culturais de massa. Expressões como “produção”, “performance” e “resultado” migraram do campo para conversas familiares, escolas e ambientes urbanos. Aos poucos, uma lógica econômica começou a ocupar espaços emocionais e simbólicos antes pertencentes à religião, à filosofia ou à política comunitária. O agro deixou de vender apenas commodities. Passou também a vender sentido existencial.
Esse fenômeno pode ser compreendido através da noção de “regime de verdade”. Toda sociedade estabelece discursos considerados legítimos, naturais e indiscutíveis. Em determinados períodos históricos, religiões ocuparam essa posição. Em outros, instituições militares ou científicas assumiram esse papel. No Centro-Oeste brasileiro contemporâneo, o agronegócio ultrapassa a condição de setor produtivo e passa a funcionar como autoridade discursiva. Quando uma atividade econômica começa a determinar quais narrativas podem circular socialmente sem resistência, nasce algo maior do que mercado: nasce uma estrutura cultural de validação da realidade.
A influência aparece também na forma como conflitos ambientais são enquadrados. Questionamentos sobre desmatamento, uso intensivo de agrotóxicos ou concentração fundiária frequentemente recebem tratamento automático de ameaça econômica. A crítica deixa de ser interpretada como debate legítimo e passa a ser vista como hostilidade contra o progresso regional. Nesse cenário, o discurso econômico ganha dimensão moral. Defender o agro converte-se, para muitos grupos, numa espécie de demonstração pública de patriotismo, racionalidade e responsabilidade coletiva.
Em Dourados, cidade marcada pela proximidade entre áreas urbanas, territórios indígenas e grandes propriedades rurais, essa tensão adquire contornos ainda mais delicados. A expansão econômica convive com disputas históricas por terra, reconhecimento cultural e pertencimento social. Enquanto setores produtivos exibem índices de crescimento, comunidades inteiras permanecem atravessadas por precariedade estrutural. A contradição revela uma questão desconfortável: crescimento econômico produz automaticamente justiça social ou apenas reorganiza desigualdades sob linguagem moderna?
Existe ainda outro aspecto silencioso nesse processo. O agronegócio contemporâneo não atua apenas através da força financeira, mas também através da estética. Vídeos institucionais mostram drones sobrevoando plantações ao som de músicas épicas. Influenciadores digitais transformam colheitadeiras em objetos de fascínio tecnológico. Crianças crescem cercadas pela narrativa segundo a qual o futuro nacional depende exclusivamente da eficiência produtiva rural. A emoção coletiva passa então a ser moldada por imagens cuidadosamente produzidas, capazes de associar mecanização agrícola à ideia de destino histórico inevitável.
Ao mesmo tempo, formas alternativas de existência tornam-se menos visíveis. Pequenos agricultores, modos tradicionais de cultivo, economias comunitárias e saberes indígenas frequentemente aparecem apenas como elementos periféricos diante da grandiosidade simbólica do agro industrializado. O problema não reside na existência do agronegócio enquanto atividade econômica robusta. O problema emerge quando apenas uma visão de desenvolvimento recebe legitimidade pública, enquanto outras experiências humanas passam a ocupar zonas de silêncio social.
Talvez a pergunta mais perturbadora não seja econômica, mas filosófica: o que acontece com uma sociedade quando a produtividade deixa de representar apenas uma meta financeira e passa a definir o valor da própria vida humana? Essa questão rompe uma fronteira raramente discutida no debate regional. Afinal, quando eficiência, expansão e desempenho transformam-se em critérios absolutos de reconhecimento social, indivíduos começam lentamente a medir a própria dignidade através da lógica do rendimento.
Nenhuma civilização sustenta estabilidade apenas através de números positivos. Sociedades também dependem de imaginação crítica, pluralidade cultural e capacidade de questionar narrativas dominantes. O agronegócio possui importância econômica gigantesca para Dourados e para o Brasil. Porém, reduzir toda interpretação da realidade ao vocabulário da produtividade talvez produza um efeito perigoso: transformar seres humanos em extensões emocionais da própria máquina econômica que construíram.
No fim, a questão central talvez não seja decidir entre defender ou atacar o agro. O verdadeiro desafio consiste em compreender até que ponto uma atividade econômica pode ocupar o lugar de horizonte absoluto da vida coletiva. Quando uma sociedade perde a capacidade de imaginar futuros além do discurso dominante, algo profundo desaparece silenciosamente: a liberdade de pensar o mundo por meio de outras verdades possíveis.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.